terça-feira, 30 de agosto de 2011

Desafio do dia: Arrisque no sentimento irresponsável.
Hoje eu estou sensível com o cristal que cai do alto da estante; como o cabele que se parte com o encaracolar; como a pluma tomada pelo vento que repousa sobre a pele.
Há dias em que as pedras transpiram.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando pensei que estava ao seu lado, ele me disse de outra cidade:
-Eu estou aqui.
Quando pensei que iria encontrá-lo:
-Vou voltar pra me despedir.
Quando eu me abri:
-É que eu estou fechado.
Quando fico assim, escrevo:
-Tomara que ele leia e leve pra si.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para Tadzio

Desde o princípio essa história é acordar.
O despertar de uma manhã é rompimento com o que se não sabe. Porque trevas não se vêem, se vivem.
Os olhos dele são repouso e mistério. Sua boca é luz para salas e corredores. Tinta nova em paredes mofadas.
Sua voz cancela mil lágrimas e me toma num mar de almofadas.
Penso no cheiro do piso da sua casa. Nas portas e janelas a seu dispor. Na cor da luz que o cerca. Nas árvores voyeur que te assediam em trocas de roupas. Penso no teu hálito contra o cheiro de café, de cigarro, de flor.
Meu desejo hoje está você. E é tão pouco ainda. Ainda e por enquanto sem controle. Ainda pueril. Cristal com resistência de aço.
Sem muitos motivos se não o seu ar.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Paixão


A paixão é invisível.

A paixão é para ser tocada com a pele da língua.

É de se roçar os pelos do nariz.

Vidra o olhar como hipnose.

Tem um gosto amargo como folhas verdes.

A paixão é cítrica como o mato.

Paixão é clorofila. É a seiva do outro que escorre como suor no rosto, nos braços, na pele, nas pernas, nos dedos.

Na floresta mora a paixão, a bruxa dos contos infantis.

A paixão é uma boca de dentes tortos, vorazes e famintos.

Não há como não se apaixonar.

Não há como não ser árvore.

Chamar-lhe "Paixão" é plantá-lo, regá-lo, colhê-lo em regalos.

Estamos perdidos numa selva de dedos funcionais entorpecidos.

Eternamente querentes, cansados, saudosos dessa doença verde e dos mamilos de fel a morder.


It's only you

Who can tear me apart

And it's only you

Who can turn my wooden heart.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Em silencio

Estou em silencio. Esperando algo. De malas em punho e casaco no ombro.
Vestido dignamente de negro e ora ouvindo Etta James ora Gustav Mahler.
Desabando e subindo. Insano, a esperar.
Andando em círculos passando por um espelho que só me reflete as pernas da calça negra.

Silence, please!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sol e rádios

Tenho a impressão de que andamos pelas ruas e somos tomados por um vazio e um silêncio profundos. Saio e não acho aquela música que sempre toca. Caminho e penso estar no mesmo lugar por épocas. E, às vezes, volto em lugares dantes visitados.
Para filme que passa na TV. Partes cortadas, atores dublados, paz para esquecimentos e desespero de busca pro outro canal.
Também vejo alguns saltos como mudar o canal rapidamente.
A vida pode ser um tédio por que em cada pessoa toca uma única música por toda vida. O que muda é o intérprete e os músicas.
A canção é a mesma pra sempre.
Pessoas são rádios sintonizadas na mesma estação tocando a mesma música, um tédio.
Aquela vontade de mudar é efêmera e duradoura. Mas, os pés continuam presos na mesma água de ondas da beira-mar.
Tem vezes que vem algas, pedras, conchinhas e outros grãos de areia. E sempre é a mesma toda água a cada minuto.
De certa forma, o melhor é quando conseguimos ouvir a rádio do que passa e do que fica.
Nos caminhos cotidianos de todos os dias sou aprisionado no esplendor de pessoas desinteressantes, como todas. Contudo, para aquele momento, elas exalam uma beleza que é particular e dominante em seus instantes.
Hoje eu ouvi duas senhoras de cabelos grisalhos curtos. Uma concurda de velhice com uma bengala. Outra de salto alto que ajuda sua parceira a andar. Parecem irmãs ou mãe e filha.
Em seguida, um rapaz que espera seu ônibus vestido em uma camisa de mangas compridas preta. Seu cabelo loiro e curto, quase militar. Uma boca pequena, alto e magro, de calça jeans justa.
Uma falsa loira de meia idade com olhos claros, cabelo e olhos desarmônicos. Lentas, ultrapassada. Sem chances pra hoje.
E um homem com cara de ossos que comia sozinho e observava as pessoas que almoçava e chegavam e saíam do restaurante.
Pensei nas músicas.
Nas músicas da minha casa, da minha vida, das minhas.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Hoje eu quero chorar

Hoje eu quero chorar por que não sei pra onde ir.
Não sei que ônibus ou táxi tomar.
Não sei que álcool beber.
Não sei a quem abraçar.
Não sei pra quem falar.

Hoje eu quero chorar por que tudo é tão pouco e me toca.
Por que minha pele é fria quando quero aquece-la.
Por que meus olhos são caídos mesmo no sorriso.
Por que meu nariz é torto e eu consigo respirar.
Por que minha boca é podre.

Hoje eu quero chorar por que o vazio que é cotidiano e comum se dilata e me delata.
Hoje eu quero chorar por que uma enguia me seduziu e foi embora.
Hoje eu quero chorar por que acho que alguém quer me desenhar o tempo inteiro e não me fala.
Hoje eu quero chorar por que destruo os planos de alguém que me aperta para mostrar o que pensa.

Hoje eu só me quero a chorar.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

de: para:

Saudade que não dormi nunca
Que se superar em cada acordar alheio
que olha a música, que come a temperatura, que cheira a paisagem

De tudo
tudo tudo
me lembra de tudo de ti

Teu sorriso tímid...
sua vozzzzzzzzzzzzzz
tua vulgaridade comum e particular
teus pés ressecados
e aquele cheiro de erva doce do teu mundo

Minha casa apodrece com a sua saudade
eu nem sei como fazer sem ...

daí passaram horas, dias, semanas, agora meses
sempre parece que passou
sempre estou naquele dia
todos os dias são aquele dia de certa forma
desmaio de Sol, desmaio de Lua

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A chegada

Se ele chegasse de repente eu teria um susto e o devoraria como se tivesse passando meses sem comer.
Se ele chegasse num instante eu pertenceria a ele pra sempre e viveríamos dentro de um cubo de gelo.
Se ele chegasse correndo eu ficaria blasé e o deixaria passar reto sem me perceber.
Se ele chegasse cansado eu entraria no quarto pra dormir e acordaria sem graça.
Se ele chegasse feliz não sei o que faria por que geralmente não sei o que fazer com a felicidade alheia.
Se ele chegasse pagando a conta o amaria por ano e depois deixaria ele ir embora com uma espontanea pressão.
Se ele chegasse pisando em ovos eu daria os gritos mais agudos de uma soprano em desespero.
Se ele chegasse me abraçando tentaria fugir quebrando galhos e pisando em flores.
Se ele chegasse mudo eu choraria manso e silencioso num cantinho do quarto.
Se ele chegasse cantando eu o abraçaria e dançaríamos durante horas e dias. Mesmo a dormir dançaríamos em sonho sob sua voz.
Se ele chegasse sem querer eu o aceitaria sem querer, em paz e sem fim sem ponto





Não é que o final seja feliz.
Apenas não é previsível, mesmo quando conhecemos o fim