quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sol e rádios

Tenho a impressão de que andamos pelas ruas e somos tomados por um vazio e um silêncio profundos. Saio e não acho aquela música que sempre toca. Caminho e penso estar no mesmo lugar por épocas. E, às vezes, volto em lugares dantes visitados.
Para filme que passa na TV. Partes cortadas, atores dublados, paz para esquecimentos e desespero de busca pro outro canal.
Também vejo alguns saltos como mudar o canal rapidamente.
A vida pode ser um tédio por que em cada pessoa toca uma única música por toda vida. O que muda é o intérprete e os músicas.
A canção é a mesma pra sempre.
Pessoas são rádios sintonizadas na mesma estação tocando a mesma música, um tédio.
Aquela vontade de mudar é efêmera e duradoura. Mas, os pés continuam presos na mesma água de ondas da beira-mar.
Tem vezes que vem algas, pedras, conchinhas e outros grãos de areia. E sempre é a mesma toda água a cada minuto.
De certa forma, o melhor é quando conseguimos ouvir a rádio do que passa e do que fica.
Nos caminhos cotidianos de todos os dias sou aprisionado no esplendor de pessoas desinteressantes, como todas. Contudo, para aquele momento, elas exalam uma beleza que é particular e dominante em seus instantes.
Hoje eu ouvi duas senhoras de cabelos grisalhos curtos. Uma concurda de velhice com uma bengala. Outra de salto alto que ajuda sua parceira a andar. Parecem irmãs ou mãe e filha.
Em seguida, um rapaz que espera seu ônibus vestido em uma camisa de mangas compridas preta. Seu cabelo loiro e curto, quase militar. Uma boca pequena, alto e magro, de calça jeans justa.
Uma falsa loira de meia idade com olhos claros, cabelo e olhos desarmônicos. Lentas, ultrapassada. Sem chances pra hoje.
E um homem com cara de ossos que comia sozinho e observava as pessoas que almoçava e chegavam e saíam do restaurante.
Pensei nas músicas.
Nas músicas da minha casa, da minha vida, das minhas.

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